Feixes. Inúmeros feixes luminosos atravessavam o céu noturno. Porém, não eram pedras vindas do alto, castigo de Taranis. Não desta vez. Eram flechas. Flechas incandescentes. Nossas flechas. Belas. Atiradas por nossos mais bem treinados arqueiros, com precisão inigualável. Em poucos instantes atingiriam nosso alvo a certa distância, destruindo nossos inimigos por completo. Assim esperávamos.
Entretanto, nem mesmo eu, o Honorável General Críev, pude esconder meu espanto quando, alguns minutos depois, nosso espia apareceu cavalgando por entre as árvores do bosque escuro das terras disputadas, tendo no rosto uma expressão de extremo assombro. Por alguns instantes cheguei a perguntar-me se o homem havia visto à sua frente a imagem dos deuses inimigos. Fora algo bem mais simples, porém. Mantive-me firme enquanto o espia nos relatava, à sua maneira demasiadamente exagerada, que os vis inimigos haviam detido nossas flechas incandescentes apenas com seus escudos - seus míseros escudos encouraçados.
- Idhi Nemetonai! Maltithia huue! - os amaldiçoei em nossa língua, certo de que, de alguma forma, aquilo também seria útil.
Já há tempos tentávamos derrotar os malditos Idheuon, que ocupavam parte das terras situadas ao leste de nosso reino - terras essas que planejávamos tomar posse. Na verdade, apossarmo-nos das terras deles havia sido o plano inicial. Mas, após alguns anos de tentativas frustradas, passamos a repudiar a presença dos Idheuon ali ao nosso lado. Eles nos incomodavam, de alguma maneira. Nosso intento principal agora era aniquilá-los, de uma vez por todas.
Incorfomado com o relato que acabara de receber, tomei uma atitude um tanto quanto tresloucada aos olhos de meus homens (não era à toa que eu também era chamado de Críev, o Maluco). Avancei com meu cavalo, enbrenhando-me no bosque sombrio. Tinha de ver aquilo com meus próprios olhos. Cavalguei por alguns poucos minutos, tomando o devido cuidado de manter-me oculto na escuridão do bosque ao aproximar-me do acampamento inimigo (afinal eu não poderia ser tão maluco). Observei brevemente e constatei, com espanto semelhante ao do espia, que de fato nossas flechas não haviam alcançado seu intento. Nenhum deles fora atingido. Nenhum. Seu general, Shtark, olhava ao redor, admirado. O acampamento estava intacto.
Ainda transtornado, dei meia-volta e retornei ao nosso arraial. Não fazia ideia de como aqueles miseráveis podiam ter resistido à nossa poderosa investida com tão pouco. Por certo seus deuses os estavam protegendo. Não havia outra explicação. Mas se eles estavam apelando a seus deuses, nós não deixaríamos por menos. De maneira nenhuma. E, quando reencontrei meus homens, eu já sabia muito bem o que fazer.
Chamei nosso sacerdote, pedindo que ele clamasse pela ajuda dos deuses e fizesse o que fosse necessário para consegui-la. Demos o sinal de trégua noturna, o qual foi imediatamente respondido - era óbvio que, na condição em que se encontravam, os Idheuon não recusariam uma pausa. Pausa para eles. Nós, na verdade, estaríamos trabalhando. Eu aguardava ansioso pela resposta imediata prometida pelo sacerdote, que já preparara um sacrifício com alguns animais. Ele não costumava falhar, e eu tinha certeza de que também não falharia desta vez.
O sacerdote retirou-se para um local isolado para fazer suas orações, mas felizmente não demorou muito para voltar. Com a resposta. Sorri ao ouvi-lo dizer que Nemetona o havia respondido. Ela enviaria um espírito, o mais apropriado, para anunciar a aniquilação dos inimigos, além de deixá-los aterrorizados. Sim, se até mesmo os próprios Nommeton temiam aquele espírito, quanto mais não o temeriam os estrangeiros...
E de fato teríamos resultado. Aquele era o momento propício para a aparição dela. Na escuridão da noite, no meio do bosque. Eu apenas precisava cuidar para que meus homens não se assustassem, mas se tudo desse certo nós sequer a veríamos - não veríamos nada além da névoa espessa que começava a se formar naquele instante. A névoa. Era através dela que ela apareceria aos inimigos, assombrando-os e prenunciando suas mortes. Ela, Gôrache Rehban - a bruxa da névoa.
Eles logo veriam surgir da névoa, tão negra quanto a noite, a figura da velha bruxa de olhos profundamente negros, sombrios, vestida de trapos igualmente negros; ouviriam o bater de suas enormes asas semelhantes às de morcegos, e o som estridente de seus uivos. Depois a ouviriam gritar seus nomes com sua bocarra repleta de dentes pontiagudos. Certamente sentiriam-se paralisados com o medo, e não poderiam correr dali. E, por fim, assim que o disco dourado despontasse no horizonte, os Idheuon estariam liquidados, provavelmente mortos, definhando. Sorri.
Nós não vimos a bruxa, de fato. Mas tive a certeza de que ela aparecera aos inimigos. Ouvimos clamores, ainda que poucos. Sentimos a presença sombria de Gôrache Rehban em meio à névoa fria que envolvia o lugar. E, principalmente, pudemos escutar o clamor horripilante da bruxa enquanto chamava os nomes de cada indivíduo do pequeno exército Idheuon. Não tive dúvida. Era o fim de nossos oponentes. A vitória estava em nossas mãos.
Estávamos tão certos disso que nos permitimos descansar um pouco até que o dia amanhacesse. O momento de repouso passou como um relâmpago de Taranis, e logo a tênue luz da manhã invadiu nosso arraial. Levantei-me apressadamente, não podendo conter minha ansiosidade. Chamei alguns de meus principais homens, e fui com eles até o acampamento inimigo. Para nossa surpresa, ao chegarmos lá, nos deparamos com um lugar totalmente vazio, a não ser por umas poucas barracas improvisadas e aparentemente abandonadas. O que exatamente acontecia ali?
De repente, ouvi um barulho por detrás de mim. Tarde demais. Apenas observei, atônito, enquanto o exército Idheuon, saindo do meio do bosque, nos cercou por todos os lados. Não havia neles mal algum - estavam com plena saúde. Eu não podia compreender como eles haviam escapado da maldição mortal de Gôrache Rehban. Mas ali estavam eles, inteiros. Nos amarraram e nos levaram até nosso acampamento, onde facilmente forçariam nossos homens a se render. Forçariam se o restante do exército Nommeton estivesse vivo... Sim, todos os homens, inclusive o sacerdote, estavam mortos, minguantes. Como se a maldição tivesse se voltado contra nós mesmos. Uma derrota humilhante. Para mim, porém, a resposta não podia ser outra: os deuses dos Idheuon eram definitivamente mais fortes que os nossos. Não precisei ser forçado a confessar isto, de certa forma.
Enquanto finalmente era levado cativo, questionei-me sobre se deveria fazer o caminho rumo à terra estranha voluntariamente. Com o coração.




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